domingo, 16 de julho de 2017

SENHOR LAZARUS



“A sort of walking miracle”
Sylvia Plath



Aquele que veio do outro lado
da morte, com os olhos cheios
de intraduzíveis paisagens
Lázaro voltou
enriquecido com o seu silêncio
de ouro.

16/07/2017


© João Tomaz Parreira

quinta-feira, 13 de julho de 2017

HÉRCULES, conto de Eduardo Klock Frank


A gravidez foi perfeita, sem enjoos e desejos. De parto normal, com peso e altura ideais: isto é, 3 kg e 50 centímetros. Hércules não chorou, mas sorriu ao vir ao mundo. De faces rosadas e perfeitas. Mamou durante 6 meses. Quando parou de mamar, não precisou de bico. Era uma criança tranquila, não dava trabalho algum. Até para trocar fraldas não havia problemas. Dormia nas horas certas, e não acordava na madrugada. Incrivelmente, nunca pegou gripe, resfriado, cachumba, catapora, sarampo. Nem alergia que fosse. Logo aprendeu a engatinhar, para depois caminhar. Começou falar impressionantemente cedo, aos 4 meses de idade. Quando falou pela primeira vez, formou uma frase com as palavras “família”, “carinho”, “mamãe”, “papai” e o verb amar. Usou a conjugação verbal certa.
Todos gostavam de Hércules Era uma unanimidade. Foi só entrar na creche, para fazer muitos amigos. As professoras também admiravam-se da inteligência e afeto do menino. Tratava bem a todos. Todos o amavam. As crianças brincavam e brincavam. Nenhuma reclamação havia de Hércules. Também, nunca se esfolou na creche, nem precisou ir ao hospital.
Os parentes - todos - ficavam alegres com Hércules. O presenteavam todo natal, páscoa, aniversário e dia da criança. E ele gostava de todos presentes. Nunca reclamava, e os retribuía com um largo sorriso no rosto. Aliás, a família de Hércules ficou e paz quando ele nasceu. As brigas acabaram, magicamente. Todos voltaram a se falar, e a visitar vovô e vovó quando podiam. Ninguém mais falava mal de ninguém.
Os primos… Os primos só se davam bem com Hércules. Não importava a idade. Dividiam os brinquedos uns com os outros. Corriam de um lado para o outro. Conversavam e conversavam, e sempre queriam ficar juntos. Com Hércules, todos também começaram a se comportar bem. Comiam direito, sem bagunça. Só faziam também o que os pais deixavam, e cumpriam todas as ordens.
Hércules não se intrometia em assuntos alheios, muito menos de adultos. Também, entendia tudo que lhe falavam e ensinavam. Não tinha medo do escuro, nunca fez xixi na cama. Dormia no horário, como também realizava as refeições. Comia toda comida que mamãe preparava, ou seja lá o que for. Não fazia birra, nem na sua casa, nem nas dos outros.
Seus pais até se preocuparam quando colocaram Hércules no colégio. Ele amava os colegas de creche tanto, que pensaram se suportaria ficar longe. Para sua surpresa, ou talvez nem tanto, ele se enturmou muito bem. Já tinha virado o líder da turma, e o melhor aluno. Só tirava nota máxima. A turma, na sua liderança, se amava. E todos se tratavam bem. Não se ofendiam, não faziam troça dos outros, ninguém era excluído, ninguém brigava, e nenhum palavrão era dito. Ninguém sofreu bullying.
Durante o colégio, se revelou um garoto prodígio, nos estudos, nas artes e nos esportes.  Dava aula a seus colegas; e às vezes, dava umas surpresas aos professores. Foi transferido. Com oito anos, já colecionava medalhas. Em natação, atletismo, futebol, volêi e basquete. Medalhas de ouro. Era multitalentoso nos estudos, brilhante em todas disciplinas, sejam exatas ou humanas. Aos 12 anos, já escrevera seu primeiro livro.  Aos 14, já era ator profissional. Aos 15 anos, comprovou teorias físicas, e contribuiu à sociedade com novos inventos de catalisadores químicos. Aos 18 anos, já tinha um milhão de dólares. Passou no vestibular federal para medicina, porém tirou também primeiro lugar em Direito numa faculdade privada, conseguindo bolsa. Depois de formado, decidiu fazer uma graduação em informática, e uma pós em biotecnologia. Estava fadado ao sucesso.
Ninguém invejava Hércules, todos o amavam, só fazia amigos por onde passava. Todos o convidavam para festas, e tinha que recusar inúmeros convites. Não tinha inimigos. Onde ia, as portas se abriam. Não teve decepções amorosas, também. Nunca sofreu, é claro, não teve angústias, medos, terrores, falhas ou ansiedade. Formou família, com sua esposa e dois filhos. Sua mulher era linda, simpática, inteligente, discreta e atraente. Seus filhos, tão sensacionais quanto o pai. Não teve crises conjugais, ou com seus filhos. Nenhuma briga ou problema. Nunca faltou dinheiro também. Sempre felizes.
Abriu uma ONG. Foi candidato a deputado federal e venceu; E desde então, o país se moralizou. Além do mais, era absolutamente letrado a respeito dos mais diversos assuntos religiosos, tendo diálogo pacífico com todas as crenças. Não se opunha a nenhuma, bem pelo contrário. nUnca constrangeu quem quer que fosse. Aceitava opiniões contrárias, e não forçava ninguém às suas opiniões, que todos aceitavam pacífica e favoravelmente.
Até que, enfim, chegou a crise dos quarenta anos. Hércules se angustiou, se viu e descobriu como uma ficção. Perguntava se ele delirava de si mesmo, ou os outros dele. Ou ambos. Hércules, definitivamente, não suportou. Questionou o que faltava fazer. Que história lhe restava. Seu mundo caiu, despedaçou, diante da angústia.  Se despersonalizou. Se viu, viu ser um personagem de um conto; e terminou num ponto final.

sábado, 8 de julho de 2017

MORCEGO & SINISTRO, um conto de Sammis Reachers


Morcego & Sinistro
                                                
      Não seria a Loucura, seja ela como for, genética ou casual, involuntária ou (in)voluntariamente auto-induzida, uma resposta, se não absoluta, absolutista ao Absurdo?

      Durante os anos de 1999 a 2004, eu trabalhei como cobrador de ônibus na linha 24, que fazia o trajeto do bairro Palmeiras até a praia de Gragoatá, em Niterói. O ponto final desta linha localizava-se num encontro de morros, pequenas ou medianas favelas, o que costumamos chamar de complexo.
Foram muitas as descobertas, espantos, amizades e inimizades que plantei e colhi, ou colhi mesmo sem plantar, ali.
      Mas escrevo para falar de dois moleques, melhor, dois jovens rapazes que sempre apanhavam meu ônibus para irem até a praia das Flechas, em Icaraí, ou a já referida praia de Gragoatá.
      Morcego era um daqueles que a literatura brasileira achou por bem ou por vício chamar, num de seus antigos chavões, de negro retinto. Tinha o rosto largo, e lábios grossos e vermelhos, contrastando com a pele muito negra. Um rapaz medroso, que ao contrário da maioria dos demais de sua idade, comunidade e contexto, jamais enveredaria pelo crime, apenas porque... era muito medroso. Simples assim.
      Sinistro... Sinistro era uma singularidade. Era um jovem baixo, de compleição um pouco forte, com peitoral de nadador sempre à mostra, independente do clima e das circunstâncias. Onde fosse, lá ia Sinistro, sem camisa e chinelos, apenas de bermuda ou chortão, com um sorriso indefectível nos lábios. Sim, Sinistro, invencível, sempre sorria. Era um zen, uma anomalia de paz transitando na favela, na cidade (quando aventurava-se), nas praias das Flexas e Gragoatá. Sinistro era deficiente mental, e meus nulos conhecimentos de psicologia impedem-me de referir o problema (a mim, anarco-cristão tardio, me pareceu sempre mais uma solução) que ele carregava. 
      Meu outro passageiro, o Morcego, era um refém da normalidade, um como eu e você, portador da velha cruz estacionária cujos quatro braços são a repetição, o enfado, a aceitação e o auto-engano.
      Por diversas vezes falei de Jesus para Morcego. “Aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.”
      – E se um bandido levar um tiro e na hora que tiver morrendo invocar o nome do Senhor, ele vai pro céu?
      – Se ele crer que Jesus é Deus e morreu em seu lugar, para o perdoar e salvar, ele será salvo.
      – Assim é mole.
      – A salvação é um presente, Morcego. Se fôssemos comprá-la, nenhum homem poderia pagar o preço. Ela só poderia ser dada.
      Espero que ele tenha invocado o Senhor no momento propício.

      Mas agora voltemos a Sinistro, e ao fundamento deste relato. Sinistro não era de muita conversa. Ele vinha, pedia para passar por baixo da roleta, com seu sorriso impassível. Eu sorria de volta e dizia, “vai lá, Sinistro.” Sentava-se, colocava a cara na janela e não falava mais. Na volta me esperava (pois aprendera por tentativa e erro que comigo a carona era certa), e eu perguntava:
      – Como estava a praia, Sinistro?   
      – Boa – pois sempre estava boa.
      O Louco é um privilegiado dentro do Absurdo. Saco de pancadas, lixo do panteão reverso humano, a ele é concedida a salvação direta. Incapaz de avaliar, como seria julgado? Incapaz de crer ou plenamente capaz, pois são os dois extremos do mesmo e tensionado arco, não estará justificado, como as crianças pequeninas de que é feito o reino dos céus?
      Mas o trágico tece os homens, como fiandeiro da Realidade que é. Certo dia, retornando da praia em meu ônibus, Sinistro e Morcego descansavam os corpos cheios da tão carioca lombeira, exauridos e felizes em sua silenciosa fraternidade. Ônibus vazio. No ponto próximo ao Plaza Shopping, subiram seis camaradas, cinco ‘conhecidos’ da favela e um outro que eu jamais vira, talvez do morro do Estado, que fica ali nas adjacências, quase contíguo ao luxuoso Shopping, e é dominado pela mesma Facção que o bairro das Palmeiras. Bandidos, claro. Sentaram-se espalhados pelo carro, e tudo ia bem. Mas eis o trágico levantando impudicamente suas saias: um bloqueio policial, uma blitz na Alameda São Boaventura, a menos de um quilômetro do ponto final, logo antes de entrarmos no bairro. Foi tudo muito rápido, um dos malandros percebeu o bloqueio à frente, “e a bolsa, e a bolsa?!?”, perguntou para os demais. Colocaram-na sob o banco, no chão. Os policiais sinalizaram para o motorista, o ônibus encostou. Os caras desesperaram-se, um deles pegou a bolsa e jogou para Sinistro,
      – Segura aí menor, se perguntarem diz que é seu.
       Morcego esboçou uma reação, – não, não, segura aí vocês, querem ferrar a gente?
      – Segura aí menor, se piar vai apanhar na favela!
      Morcego silenciou. Eu percebi a cena, os malandros estavam tensos, olhos esbugalhados. Eu também silenciei.
      Os policiais vieram revistando um por um. Chegaram em Sinistro. Pediram-no para abrir a mochila, ele não conseguiu, apenas ria e silenciava, aquele silêncio de Jesus frente a Pilatos. O policial falou alguns palavrões, apanhou a bolsa, abriu, uma arma e muitos papelotes.
      – Isso é seu? Isso é seu???
      Sinistro sorria. O policial deu-lhe um murro na cara. Eu não suportei,
      – Ele é especial, é maluco. – Um dos malandros, que estava em pé, olhou-me de soslaio.
      – Eles estão com você? – perguntou a Sinistro.
     Sinistro abriu a boca para falar inocentemente a verdade:
      – Eles não. Tamo só eu e ele – e apontou para Morcego.
      Morcego passou a tremer e gaguejar, – eu não eu não eu não – mas não denunciou os marginais. A polícia desconfiou de algo, levou três dos malandros e mais Sinistro e Morcego. Outros três conseguiram se safar, fingindo, claro, estarem separados. O ônibus seguiu viagem.
      Minha covardia perdeu poder, eu não me contive.
      – Vocês são muito filhos-da-####, hein, ferraram o moleque, sabendo que ele é deficiente!
      Um deles sabia que eu era crente:
      – Que isso irmão, tá nervoso? Ele é de menor, vai sair hoje mesmo.

* * *

      Não tive mais notícias de toda aquela desgraça até dois dias depois.  Dois dias que o Espírito Santo fez com que fossem longos, distendidos dias de vergonha e arrependimento. Então encontrei Morcego na padaria, ponto final do ônibus.
      – Sinistro ficou agarrado, e os três caras também. Eu consegui sair.
      – Mas Sinistro não é de menor?
      – Não, ele já tinha dezoito anos.
      Dissolvido em sua alienação, sequer tivera tempo de envelhecer: aparentava quinze anos.
      Nos dias seguintes tudo se esclareceu: os policiais não acreditaram em Morcego, mas o liberaram, pois possuía apenas dezesseis, e os marginais resolveram ‘inocentá-lo’. Sinistro não teve a mesma sorte: eles precisavam de um bode, de um bucha. Atestada sua demência, Sinistro foi transferido para o Hospital Psiquiátrico de Jurujuba, em Niterói.
      Com uma semana que Sinistro havia sido preso, e três dias depois de transferido para o hospício, sua família foi visitá-lo. Morcego quis ir junto.
      Ao retornar, Morcego trazia transtornos e constatações em suas fragilizadas asas. Transtornos por ver o amigo, a própria encarnação da paz, ferido e sedado, transfeito de sorridente monge zen em patético e pálido zumbi. E a constatação maior, geral: era possível resgatá-lo. A segurança era baixa, nada comparado à cadeia de verdade.
      Nos dias seguintes, o covarde Morcego iniciou uma cruzada na favela. O objetivo de sua pregação: convencer o ‘dono’ do morro, Simiano, que não gostara de saber o que seus subordinados haviam feito, a resgatar Sinistro. Isso mesmo: o covarde Morcego, que temia tiros e pancadas da polícia, tinha um plano e buscava homens de verdade para realizá-lo.
      Um dia ele veio falar comigo. Falou dos sofrimentos de Sinistro. Em seus olhos de culpa, espelhei minha culpa: seu silêncio no momento capital fora também meu silêncio, sua lendária covardia não fora menor que a minha, eu, o muito crente e muito homem e muito culto cobrador do carro 110 da linha 24, que não abaixava a cabeça pra ninguém. Mentalmente eu vislumbrava o sorriso de Sinistro, eu contemplava a sua paz, e eu senti então, aos vinte e cinco anos, o que Judas sentiu depois do beijo. Eu me ofereci para tomar parte no resgate, ofereci meu braço, minha mente. “Perdoe-me, Jesus. Eu preciso desfazer a merda que eu fiz.”
      Um dia depois Morcego intimou-me: o patrão sabia que eu desejava tomar parte na empreitada, e ‘mandava’ que eu fosse ao morro, após largar do serviço. Trabalhava no turno da tarde, das 12:00 às 19:00. Às 20:00, estava no alto do morro, onde nunca havia subido. A mãe de Sinistro também estava lá. Tive estranhas sensações, não sabia se orava ou se me rebelava, mesmo que numa micro-rebelião, tentando inútil e miseravelmente deixar Deus ‘de fora’ daquilo.
      No dia seguinte, Sammis, o branco com cara de bobo ou de cidadão respeitável iria ao hospício, avaliar o cenário. Quem suspeitaria?

* * *

      No dia da ação, todos iriam armados. Ainda segundo o plano traçado no alto do morro, utilizaríamos três carros (certamente roubados; eu já não queria saber ou me informar, como se minha falseada inocência fosse diminuir-me a pena na contagem de meus pecados). O teatro da ação seria uma das áreas mais nobres de Niterói. O próprio hospício ficava defronte ao mar. Localizado no bairro de Charitas, ladeado pelos bairros de São Francisco, de um lado, e Jurujuba do outro, que é um bairro sem saída, estendido sobre o mar em forma de istmo. Fugiríamos então via São Francisco. Faríamos uma troca de veículos dentro do túnel Raúl Veiga, que por sua vez liga o bairro de São Francisco a Icaraí, por onde se daria nossa fuga em direção ao bairro das Palmeiras.
A ideia da troca de veículo foi minha, era fácil fechar o túnel ou armar barreiras do outro lado, em caso de alguém alertar a polícia. E do outro lado do túnel, a míseros quatrocentos metros, estava exatamente a 77º DP. Próximo ao Hospício ficava a 79º DP. A realizar-se o pior, teríamos um terrível cenário, digno daqueles ridículos filmes de ação americanos e suas batalhas assimétricas, de um contra cem, um contra mil, pois seriam muitos policiais mobilizados em curto espaço de tempo. Só que, ao contrário dos filmes, ali as balas seriam letais, fundidas no rude metal da realidade, e a garra do destino estaria em nossos pescoços. Satanás sorria enquanto varria o salão para o grande baile, feliz em saber da presença de um convidado especial, um ‘crente’ se não desviado de direito, já desviado de fato. Ou já prestes.

      No dia decidido eu e mais dois rapazes da boca entramos no hospício, a título de levar uma doação para os internos. Eu e minhas malditas ideias. Não era hora de visitações, mas a mãe de Sinistro já estava lá: a estória era que ela estava com câncer, com prognóstico de poucos meses de vida, e precisava ver o filho antes de uma cirurgia arriscada. Sim, eu tinha imaginação. Ela se encarregaria de levá-lo para fora do edifício, para o pátio, onde conversaria com ele. Nós simplesmente renderíamos os dois guardas do portão, e faríamos a extração do paciente, para a van que aguardava do lado de fora. Morcego estava no calçadão da praia, quase em frente à 79º DP, para vigiar a movimentação policial. Jô, um dos enviados de Simiano, estava próximo à 77º DP, onde aguardava o momento de fechar com um carro a estreita rua Dr. Carlos Halfeld, que fica ao lado da 77º, dificultando assim o acesso dos policiais à Rua Roberto Silveira, por onde dar-se-ia nossa fuga. Os policiais não seriam impedidos, mas ao menos atrasados. Embora a rua fosse tão próxima que poderiam simplesmente ir a pé. Mas a ideia era atrasar seus veículos, em caso de perseguição.

      Como já referi, Sinistro só andava sem camisa. Sol quente ou dia frio, lá ia ele, de peito nu impávido como um andorinhão. No hospício foi obrigado a andar no padrão, uniforme de bermuda longa e uma camisa verde de grosso tecido.
      Ao ganharmos a rua, a primeira coisa que ele fez (acreditei que só então entendendo e assimilando a libertação em processo), foi arrancar a camisa. Como um Adão que, em sublime transcendência, tornasse à inocência, ao estado de luminoso torpor que é a graça.
      De acordo com a cosmovisão de cada homem, ou a corcunda que cada um traz no entendimento, ele poderia ser visto como um deficiente, um sub-humano, um indivíduo sempre carente de cuidados; para outros entendimentos, dissonantes do massivo coro, era um super-cara, um liberto sem luta e sem trauma, um pacificado, ou numa melhor palavra, um transcendente. Li livros demais em minha vida; se não pudesse reconhecer um transcendente, e se não estivesse apto para reconhecer uma causa, um motivo, um sentido, não seria um cristão.

      Quando prestes a entrarmos na van, os tiros caíram sobre nós. Um dos caras da boca, que segurava aberta a porta para que entrássemos no veículo, foi o primeiro alvejado. Os tiros vinham de dentro do hospício: algum segurança interno miseravelmente percebera a ação. Talvez passasse próximo à portaria no momento. O outro rapaz sacou a arma e começou a disparar. Um carro da polícia vinha trafegando em direção aonde fugiríamos; ouviram o som dos disparos. Ligaram a sirene. Do outro lado da rua, na calçada do canteiro central, em posição à boa distância por trás da viatura, Morcego sacou a pistola com que nunca atirara e começou a disparar contra o veículo. O outro rapaz da boca disparava contra o segurança do hospício, enquanto eu me dividia entre colocar o rapaz ferido dentro da van e tentar impedir o que atirava, pois havia diversas pessoas no pátio. Ao perceber que, mesmo à distância, a polícia começara a disparar, o terceiro elemento, ao volante da van, simplesmente acelerou e partiu com o veículo. Cão. O segurança do hospício parou de disparar, seu 38 deve ter ficado sem balas. A viatura, agora parada há alguns metros na estrada, disparava contra Morcego e contra nós. Morcego, atingido, largou a pistola, atravessando a rua e correndo em direção à praia.
      Sinistro, que até então ficara estático, sem entender a violência célere dos acontecimentos, ao ouvir o grito de seu amigo e vê-lo fugindo, correu atrás dele. Foi somente então que saquei a arma que me fora emprestada no morro. Disparei contra os policiais da viatura, para cobrir a fuga de Morcego e Sinistro em direção ao mar. Estávamos em campo aberto, o rapaz que ficara comigo gritava:
      – Babou, babou irmão, a casa caiu, vombora!
      Correu em direção contrária, me deixando só, como um dos alvos dos disparos da polícia, que fazia fogo também contra as costas de dois anjos de pó que fugiam sem saber de que, sem saber para onde.
      É assustador, e se Deus não estava ali, foi a pura eficácia do mal: atingi dois dos três policiais, enquanto o terceiro ficou em posição inalcançável, atrás da viatura. Com o tiroteio, o trânsito nas duas mãos da via havia parado, mas outra viatura se aproximava, dessa vez da Polícia Civil, avançando dividida entre a calçada e o acostamento. Quem mandou bolar um resgate a quinhentos metros de uma delegacia? Corri em direção à outra mão, em direção ao mar. Outros policiais, esses militares, vinham já correndo pelo calçadão em direção a Morcego e Sinistro, que entraram na água. Os policiais dispararam. Disparei contra eles, a 14ª e última bala da pistola se foi sem encontrar carne alguma. Não havia carregador sobressalente, não pensamos que seria necessário. Atiraram contra mim, abaixei-me, levantei as mãos, estava cercado pelos dois lados.
      Pude ver quando um deles, disparando sem parar, atingiu Sinistro, pois ele imediatamente afundou. Morcego, ferido no ombro, já havia sumido no mar calmo da praia de Charitas.

      Depois de receber o soco na cara e os chutes, fui colocado numa viatura, a mesma que ajudara a perfurar com minhas balas, balas certeiras demais para um amador.  Atingira um na mão, e ele agora, em pé ao lado da viatura, me olhava com olhos prenhes de ódio; o outro estava vivo, mas estendido no chão.
      Suado, sozinho, ferido e empapado pelo sangue que meu nariz vertia, como Bonhoeffer conspirando para matar Hitler, fiz-me a pergunta retórica fundamental, por isso talvez não-retórica: os fins justificam os meios? Não, a não ser que seja pelo bem supremo. E a Redenção é o fim, o bem supremo, a equalização do caos.
Sinistro alcançou o fim pelo qual tudo no Universo digladia-se, de quarks até galáxias, passando pelo Homem de pó: Redenção. Pois redenção é o amor em ação, é a sua perfeita práxis.

      Adeus, Sinistro. Primeiramente teu é o Reino dos céus.

      Confúcio diz que virtude é realização. Amigos até a morte, que, impotente para separá-los, uniu-os, ambos afogaram-se na virtude, realizaram-se.

      De Morcego, espero que ele tenha invocado o Senhor no momento propício.

* * *


      Hoje estou preso na carceragem da 76º DP, em Neves, São Gonçalo. Há irmãos aqui, fazemos cultos, dou aulas de rudimentos de teologia, filosofia, história, repasso o que acumulei.
      Outro dia um dos irmãos, Aloísio, viu-me rabiscando algo na página de guarda de um livro. É um homem humilde, mas entendeu que tratava-se de uma rota, um plano. Depois, durante o banho de sol ele se aproximou e bastante sem jeito me perguntou se eu iria fugir.
      - Lutei para desfazer uma injustiça, que os homens e as circunstâncias jamais desfariam a tempo; não tenho parte com leis injustas. Se há um maquinário, um sistema disposto a oprimir, de minha parte estou disposto a resistir-lhe, a ir contra a chibata. Sim, pretendo sair daqui.
      Estávamos sentados no chão, de cabeças baixas, recostados numa parede cuja umidade o calor do sol, com toda a sua inclemência e seu chicotear, era impotente para eliminar. Aloísio abaixou ainda mais a cabeça, entre escandalizado e confuso.      Observando o espanto incrédulo por trás de sua face humilde, um flash obscuro me fez pensar se eu estaria ensandecido. Mas, espasmo de luz que era, desfez-se.   

      Ficamos em silêncio; ele ruminaria as informações que se contradiziam em sua cosmovisão, sua corcunda. Agora era ele e Deus. Não sei qual foi seu crime, em quais linhas do destino ele embaraçou-se ou foi embaraçado. Mas se for inocente, o levarei comigo na fuga. Deus proverá.

De O Pequeno Livro dos Mortos (Ed. Letras e Versos, 2015). Para adquirir seu exemplar, escreva para: sreachers@gmail.com

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Miguel Torga: À Beleza


À Beleza

Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.

És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.

És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.

És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço...
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.

Miguel Torga, in 'Odes'

Via http://abrigodossabios-paulo.blogspot.com.br

quarta-feira, 28 de junho de 2017

CASA DE ORAÇÃO

“Vês estas grandiosas construções? Não deve ser aqui deixada
Pedra sobre pedra que não seja desmoronada”
Marcos, 1, 2


Quando fechares um dia as tuas portas
não será porque a noite
desceu o véu translúcido sobre as coisas

Ou porque te falte o amor
 para acolher os homens e mulheres perdidos
será porque a bagagem estava pronta e Ele veio.

Há sinais que o mundo ignora, o sangue
nas estrelas, a qualquer hora os mares
podem erguer-se do seu profundo leito
e os sismos
que abrem fendas nas nossas arquitraves

Quando fechares as tuas portas
será porque à hora mais inesperada
os relógios deixarão de ter valia
virá  Aquele por quem anseia a nossa alma

A qualquer hora da noite nos levantaremos
a qualquer hora do dia, subiremos de repente
pelo algodão das nuvens
e a casa de oração fechará as suas portas

E quem entrar, porque perdeu a noção da hora
encontrará cadeiras e talvez algumas mãos vazias
quando vier  Aquele que se espera
haverá um silêncio assombrado que passa
nos olhares dos homens
baterão com insistência à tua porta

Mas será o silêncio de Deus que encherá
para sempre os cantos mais recônditos
mesmo os mais iluminados desta casa.

16/6/2017

© João Tomaz Parreira

sábado, 24 de junho de 2017

a Mulher



Onde estão, Mulher, aqueles teus acusadores?
que vieram escondidos atrás das sombras
como falsificadores de Moisés, onde estão 
aqueles que escutaram através das paredes,
que não vêem
senão a carne dos dramas alheios, os que trazem
o incenso do sexo na cabeça
e denunciam o que pode ser um amor
errado, mas ainda assim amor.
onde estão, Mulher, aqueles acusadores
que se vestiram com vestes empertigadas
para o solene cortejo, para te levarem ao cúmulo
das pedras, onde estão agora
aqueles que usaram na voz a volúpia rasteira,
todos aqueles que medem tudo com o ranger
dos dentes da sua santidade?

22-06-2015
© João Tomaz Parreira

terça-feira, 20 de junho de 2017

Hermann Hesse: Amar


Amar

Quanto mais envelhecia, quanto mais insípidas me pareciam
as pequenas satisfações que a vida me dava,
tanto mais claramente compreendia onde eu deveria procurar a fonte
das alegrias da vida.
Aprendi que ser amado não é nada, enquanto amar é tudo.
O dinheiro não era nada, o poder não era nada.
Vi tanta gente que tinha dinheiro e poder, e mesmo assim era infeliz.
A beleza não era nada.
Vi homens e mulheres belos, infelizes, apesar da sua beleza.
Também a saúde não contava tanto assim.
Cada um tem a saúde que sente.
Havia doentes cheios de vontade de viver
e havia sadios que definhavam angustiados pelo medo de sofrer.
A felicidade é amor, só isto.
Feliz é quem sabe amar.
Feliz é quem pode amar muito.
Mas amar e desejar não é a mesma coisa.
O amor é o desejo que atingiu a sabedoria.
O amor não quer possuir.
O amor quer somente amar.

Hermann Hesse


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