terça-feira, 10 de outubro de 2017

Febre de Mar, poema de John Masefield


Febre de mar 

Eu devo ir para o mar novamente, para o mar e o céu solitário,
E tudo que peço é um pequeno navio e uma estrela para me guiar por ela,
E o golpe do volante e música do vento e a vela branca a tremer,
E uma névoa cinza sobre o mar e uma onda cinza quebrando.

Eu devo ir para o mar novamente, para encontrar a maré correndo cheia de vida
É um convite selvagem e um apelo claro que não pode ser negado;
E tudo que eu peço é um dia de vento, com nuvens brancas voando,
E um fluxo de espuma se espalhando, e os gritos das gaivotas.

Eu devo ir para o mar novamente, para a cigana vida errante,
Para o caminho da gaivota e da baleia, onde o vento é como um corte de faca aguçada;
E tudo que peço é um riso alegre e a risada de um companheiro vagabundo,
E o sono tranquilo e o doce sonho, quando o caminho for muito longo.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O QUE NÃO QUERO



Não quero uma coroa
que me esmague a cabeça, nem louros
que deem a impressão de ter impérios
Camões teve-a
em troca do seu olho e morreu de fome
Não quero coroas de rosas, que são para
as virgens que envelhecem sem destino
Nem muito menos
quero uma  coroa de espinhos
onde o  sangue floresça, só uma
cabeça a pôde ter e o sangue correu
pelo arco-íris dos seus olhos
Não quero nada, nem esse vinho
em taças de alabastro da poesia.   

04/10/2017

©  João Tomaz Parreira

domingo, 1 de outubro de 2017

Juventude, poema de Mário Faustino



. . .Juventude —
a jusante a maré entrega tudo —

maravilha do vento soprando sobre a maravilha
de estar vivo e capaz de sentir
maravilhas no vento —
amar a ilha, amar o vento, amar o sopro,
                                                [ o rasto —
maravilha de estar ensimesmado
(a maravilha: vivo!),
tragado pelo vento, assinalado
nos pélagos do vento, recomposto
nos pósteros do tempo, assassinado
na pletora do vento —
maravilha de ser capaz,
maravilha de estar a posto,
maravilha de em paz sentir
maravilhas no vento,
encapelado vento —
mar à vista da ilha,
eternidade à vista
do tempo —

o tempo: sempre o sopro
etéreo sobre os pagos, sobre as régias do vento,
do montuoso vento —
e a terna idade amarga — juventude —
êxtase ao vivo, ergue-se o vento lívido,
vento salgado, paz de sentinela
maravilhada à vista
de si mesma nas algas
do tumultuoso vento,
de seus restos na mágoa
do tumulário tempo,
de seu pranto nas águas do mar justo —
maravilha de estar assimilado
pelo vento repleto
e pelo mar completo — juventude —

a montante a maré apaga tudo 



em "O homem e sua hora e outros poemas". (Organização Maria Eugenia da Gama Alves Boaventura Dias). 1ª ed., São Paulo: Companhia das Letras, 2002.


sábado, 30 de setembro de 2017

A VIAGEM, de C.S.LEWIS - Em jeito de recensão literária



© João Tomaz Parreira

 O Narrador entrou numa fila extravagante para apanhar um autocarro, uma pequena multidão heteróclita esperava já o mesmo transporte. Essa paragem parecia ser o único lugar com vida de uma cidade deserta e sem beleza.
É o início do livro de C.S.Lewis cujo título original é “The Great Divorce” e na tradução em língua portuguesa “A Viagem”.
A passagem para o português, por Richard King e Lurdes Oliveira, usa  vocabulário e sintaxe cuidados, dialogia e harmonia entre as  frases, concordâncias irrepreensíveis, respeitando a semântica do autor, e como complemento útil, excelentes notas referenciais do Editor. Reconheço desconhecer o original, mas a leitura desta tradução é, sem dúvida, uma reescrita.
Sem meios, de momento, para fazer comparatismo com a tradução brasileira (O Grande Abismo, da Editora Vida), o que posso aduzir é que a versão A Viagem fazia falta na nossa língua comum.
O editor, meu amigo de há muitos anos,  João Pedro Martins, do Desafio Miqueias,  e o ilustrador da capa, também meu amigo Natanael Gama, fizeram um trabalho excelente.
O grafismo da capa, estruturado numa “linguagem gráfica” de BD(banda desenhada), reflecte essa viagem, que metaforicamente parece ser nocturna,  isto é, com suficiente mistério e encantamento, como quando o dia nos dá os seus primeiros sinais envolto em neblinas.
Esta obra de Lewis é um contraponto, para não dizer confronto a uma outra, centenária, do poeta William Blake em que este faz um casamento entre o Céu e o Inferno. Assim, estando o leitor no domínio do que está para além de si e no diáfano espaço do celestial, dir-se-ia que a leitura de “A Viagem” se fará sempre com a predominância da sétima função da linguagem, para usar a expressão de Roman Jackobson, a linguagem mágica e encantatória.
De resto, como sabemos, desde As Crónicas de Nardia, C.S.Lewis sempre a utilizou nas suas alegorias.
O livro que comecei a ler não foge a esta “regra”, que em Lewis é um estilo irrefragável. É uma metáfora, é uma grande fábula,  e se quisermos dizer de outra maneira, mais “bíblica”, é tipológico. Dir-se-ia que parece, no âmbito das intertextualidades, o Huis Clos ( À Porta Fechada ) de Jean-Paul Sartre,  mas com uma multidão de protagonistas.
Do ponto de vista literário, que deve ser sempre aquele pelo qual abordamos a obra de Lewis, temos pela frente literatura do fantástico, que antecipou, de certa maneira com conteúdo teológico-cristão,  a literatura sul-americana de Gabriel Garcia Marquez a Julio Cortázar. E séculos antes do autor de “Crónicas de Nardia”, John Bunyan com “O Peregrino”.
Em “A Viagem”, Lewis reflecte sobre a temática que é da bagagem do Cristão: a concepção do Céu e do Inferno. A vida – vivências, circunstâncias, conflitos, concordâncias - para além da morte.
Ambos os lugares não se interpenetram, tão-pouco se equivalem, não devem equivaler-se porque são equidistantes na vida do Cristão.  Num “Study Guide” da obra, assinada pelo próprio autor, ao que suponho, lemos no início desse Guia de leitura que “não há um céu com um pouco de inferno”, nem o contrário.
O que existe entre ambos, é um abismo.
Percorrendo as páginas e tendo encontros com as personagens, temos a sensação de que nos deparamos com um texto, que é mais do que ficcional, é uma mitopeia, uma “mythopoeic fairy”, (conto de fadas ou mitopoema, para usar um neologismo traduzido do inglês).
É a imaginação a funcionar, tal como no clássico do século XVII de Bunyan, numa metalinguagem que se percebe ser (nas págs. 28 e 30) do âmbito do sobrenatural, melhor dito, do maravilhoso ou do domínio do extra-subjectivo. Como os filósofos, C.S.Lewis interpreta aqui a vida para além da morte de modo variado e, por vezes, iconograficamente, para transformar isso nas relações do quotidiano. Um dos referentes, a Morte, tem um código próprio, tal como o céu e o inferno na linguagem lewisiana para nos falar de A Viagem.
“- Prefiro morrer”- diz uma personagem (o Fantasma, que é uma mulher)
- Mas já morreste! Não adianta ignorar isso”- disse o interlocutor ( o Espírito)
É uma obra estruturada no onírico – no final (pág.150), percebe-se isso -, como O Peregrino baseado num sonho, com as personagens dramáticas inominadas, sejam o Inteligente, o Poeta Desgrenhado, o Grandalhão e o Baixinho, o Luminoso, o Fantasma Esquálido e o Fantasma Episcopal, o Espírito, como no romance de Bunyan são, por exemplo, o Cristão, o Obstinado e o Adaptável, etc.
Não é uma obra com citações bíblicas a propósito e a despropósito, como encontramos hoje em alguns livros “evangélicos” que usam as Sagradas Escrituras como pretexto para escrever um “best-seller” de auto-ajuda por detrás do texto sagrado.
É uma obra de induções, isto é, induz-nos ao pensamento bíblico e conduz-nos à teologia, repondo desde a época em que foi escrito, 1945, até hoje, a concepção perdida da existência do Inferno e do Céu e da viagem do Crente e do Ateu para esses lugares.
Não é uma obra apocalíptica, no sentido da escatologia.  O que é, de facto, é apenas um romance cujo locus é o após-a-morte, mas com diálogos como se fossem uma conversa entre as personagens em vida, e, no entanto, elas são dramatis personae que morreram e vivem já no plano da vida eterna.
No que concerne a aspectos teológicos sem mais, que são detectáveis,  Deus e Jesus Cristo, o Cristianismo e a Verdade perpassam neste livro na forma de diálogo ou nas chamadas discussões de sociedade teológica.
 Há, porém, uma metáfora que, neste livro de CSL, é indubitavelmente da teologia por muito que o homem queira esquecer-se, o Inferno. Mesmo quando o narrador adoça o termo com uma realidade, impressionante, chamando-lhe “cidade sombria”, “cidade cinzenta”, com “a sua contínua esperança de alvorecer.”
A linguista búlgara Julia Kristeva escreveu que “a presença da linguagem é sensível nas páginas da Bíblia”, uso esta frase a propósito de A Viagem para dizer o contrário, que a presença da Bíblia confere sensibilidade à linguagem desta e das demais obras de C.S.Lewis. __________   





quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O NEGRO




“O negro foi inventado”
James Baldwin



O negro foi inventado, não foi a Bíblia,
Nem o livro do Génesis quem o inventou
Quem viu a palma das mãos de Cam?
Eu não inventei o negro, e todavia
Sou negro, por contrapartida com o branco
O negro foi inventado, e não foi Deus
Quem o inventou, Ele não se sentou
No pó do Éden para criar negros
E brancos, mas para criar o Homem
Algumas religiões inventaram o negro
Era preciso alguma coisa para ter medo.

27/09/2017

© João Tomaz Parreira 

domingo, 24 de setembro de 2017

Propiciação à Topofilia - Sammis Reachers

Jurujuba, Niterói, 2011. Sammis Reachers

Propiciação à Topofilia

“... espaços proibidos a forças adversas, espaços amados.”
Bachelard

espaços abertos
desertos
verdes semi-verdes
pelo vento municiados:

paraísos do possível

Éden desfeito ressonando fragmentário
ruído de fundo à espera no espaço
de quem lhe vibre à frequência:
um herdeiro para lugarizá-lo 

sábado, 16 de setembro de 2017

O AMOR NO ÉDEN

(William Blake, 1808)



Depois do primeiro olhar
Para a mulher, continuou
Adão a tocar-lhe, agora com a flor
Dos dedos, carne da sua carne
Ossos dos seus ossos
Adão e Eva debruçados
Nos olhos um do outro.


16/09/2017

© João Tomaz Parreira 
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