domingo, 11 de fevereiro de 2018

SYLVIA PLATH ON THE BEACH (27/10/1932 - 11/02/1963)




À beira do mar, na areia do meio-dia

Os teus lábios mantêm um sorriso inconsumível

Nem o vento arranca fios de ouro aos teus cabelos

Na pose de quem tem os olhos nas coisas singulares.

Todo o princípio da poesia

Sob a capa transparente do sol ao longo do teu corpo

preparavas o salto felino da beleza

que ainda hoje nos devora.



11/02/2018

© João Tomaz Parreira

sábado, 3 de fevereiro de 2018

LISBOA, 1494



Lisboa, 1494

Dois anos antes de 1496, dois anos antes do Rei Manuel I, bem intencionado filho comum da Idade das Trevas, expulsar os judeus de Portugal: Um sábio rabi, judeu lisboeta solitária e espontaneamente converso a Cristo, desejoso de auxiliar com sua sabedoria o avanço do Reino, ao iniciar de cada dia, assim orava a Sabaoth o Santíssimo:
- O que posso fazer hoje pelos que te servem?
E, no dia seguinte, divergia sua oração nest’outro sentido:
- O que posso fazer hoje pelos que te amam?

Pois, sem horror ou escândalo, sentimentos próprios das bestas e dos noviços, o sábio havia aprendido que nem todos que O amam O servem, e nem todos que O servem O amam. Com desprezo pelo paradoxo, o auto sacrifício perfeito de um sábio, resignava-se a soldado e cumpria o seu papel.

Sammis Reachers

domingo, 28 de janeiro de 2018

TEU NOME

alba de luz somnolienta
Octavio Paz, “Tu nombre”

Parte de mim, lume aceso sobre as quimeras
quando a treva dá por trás
e já não tenho para que lado abrir
a aurora
sem ele
tudo é sono: a luz e a sombra,
a espera e o alcance, a fome e o estar saciado
não há fruto que amadureça,
é para sempre verde, imóvel e instante
sem ele
o vento sibila até quebrar os mastros
o vento é todo o território da realidade
que a própria terra leva, desfeita
sem ele
os meus órgãos envelhecem, a minha pele
dissipa com os fogos-fátuos,
é um húmus com o húmus
sem ele
o néctar não acha abelha
para o seu poema
sem ele
tenho espinhos na coroa
mas com ele
os espinhos têm rosas
Rui Miguel Duarte
21/01/18

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

VOCAÇÃO SEM SAPATOS



De tarde depois da escola, todo o universo
É meu, conjugado nas letras que aprendi, reescrevo
Desenho no caderno a alegria 
Dos meus olhos, não preencho formulários
As minhas palavras são livres
O sol esta tarde aqueceu-me os pés, no chão
Começo a ser um homem, todos os dias
Como uma pequena ave que salta e aprende.

09/10/2017


© João Tomaz Parreira

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

NUIT DE NOËL (Sobre Paul Gauguin, 1902)







Onde a casa tosca se escondia e o feno
Estava sempre quente, não foi aí que Gauguin
Viu o natal. A cena da natividade dos antigos
Mestres conhecia, todos pintavam a manjedoura
Como uma cena celeste, ele revelou
Os animais com a reverência alegre no olhar
Pastoras com olhos polinésios e a neve
Como a lã a cobrir o inverno da Bretanha
Maria e José à porta do abrigo
Com a linguagem extasiada do silêncio
Mostravam o Menino, numa boa-nova tropical.


22/12/2017

© João Tomaz Parreira 

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Para os Que Virão, poema de Thiago de Mello


Para os que Virão

Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.

Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.

Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
muito mais sofridamente - 

na primeira e profunda pessoa
do plural.

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros.)
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O Canário Preso, poema de Zenas de Resende Vieira


O CANÁRIO PRESO

Às aves Deus dá o céu, a imensidade,
As verdes florestas, os campos sem fim,
 Os espaços, onde voam à vontade,
As relvas virentes do imenso jardim.
Mas, vil homem mau, egoísta, perverso,
Vendo a liberdade do pobre cantor,
Reduz à gaiola o seu grande universo
E dele se toma veraz opressor.

Assim é, canário, que preso caíste
Na infame gaiola, em que hás de viver!
Ficou solitária a parceira e mui triste,
Cantando outro canto de tédio e gemer.
Não pode esquecer-te, mas canta baixinho,
Lembrando os bons tempos que livres nos ares,
Ao sopro das brisas, contentes no ninho,
Vivíeis juntinhos, sem dor, nem pesares.

Agora cativo, qual vil degradado,
Sem mais esperança de libertação,
Tu arcas sofrido, co'a dor do teu fado,
Sem mais distrações pelo vasto sertão.
Teu vil prendedor, sim, ficou mui contente,
Com o teu murmúrio, ao longo das horas,
Cantando e chorando o teu hino dolente,
As mágoas do peito no canto que choras!

 Zenas de Resende Vieira

Do livro Grão de areia nas praias do mar (Edições Cristãs Editora).

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